Teresa


    Hoje é aniversário da mulher que mais admiro no mundo, minha mãe, a vó Lesa do Isaac. Antes mesmo de me entender por gente recebia carinho nos leitos dos hospitais em noites frias, desde nenê eu tive bronquite e ela nunca me abandonou. À medida que fui crescendo dois passos eram suficientes para um desmaio e quando abria meus olhos novamente estava em um hospital.
     Ela usou de toda a sabedoria das mulheres do interior, tomava gemada de manhã, café com manteiga, xarope de umbigo de bananeira com coca cola, chá de poejo, tenho todos os sabores guardados na minha memória, alguns não eram bons hahahah.
    Antes de cuidar de mim ela já tinha cuidado de muitas famílias, quando criança ela trabalhava cuidando de outras crianças e quando veio de Araxá para São Paulo, em 1940 cuidava de uma família, foi doméstica, babá, cozinheira. Todas as crianças sempre olharam para ela com muita felicidade, não sei explicar, o filho dessa patroa em específico resolveu chama-la um dia de mãe e óbvio que a patroa odiou, mas entendo que ela cuidava do menino como se fosse um filho.
    Com uns sete anos mais ou menos ela fazia cachorro quente para eu levar para a escola, não era sempre que minha família tinha dinheiro para comprar lanche na escola e o mais engraçado era que as crianças queriam trocar o lanche delas comigo, a mãe sempre cozinhou bem.
     Já adolescente eu via ela e meu pai na cozinha de casa, ela fazendo comida e ele pegando uma colher e comendo durante o preparo e ela brigando com ele, o jeito que os dois se olhavam era único, o pai era brincalhão e ela séria, ele ouvia Leonardo, sempre aprontava e ela mesmo brigando sabia que ele a amava. Quando o pai faleceu foi horrível, perdemos duas partes ele e um pedaço dela se foi junto.
     Na adolescência os meus amigos sempre iam em casa e era aquele bando de menino fazendo pipoca e vendo filme de terror, e ela nunca se esquentou com o movimento de casa, sempre acolheu todo mundo, fazia pipoca quando dava. Quando eu jogava três corta na rua ela me chamava pra tomar mingau, o que me rendia uma zueira extra, mas eu ia porque mingau é bom. Quando fazia ensino médio eu saia todos os dias de casa cedo para ir fazer o curso no Criar que fica no Bom Retiro e a noite ia para a escola, e chegava em casa morta de fome, nesse tempo não tínhamos microondas e sempre minha comida estava separada e quente em uma frigideira, eu sou uma pessoa fácil de agradar no quesito comida, amava quando tinha omelete com jiló, ou couve.
    Eu sempre disse que iria fazer faculdade, e meu pai e minha mãe nunca desacreditaram de mim. Lembro-me de uma fase que ela reclamava que eu ainda não estava estudando e eu falando calma eu ainda não fiz as provas, quando eu ingressei foi a maior alegria para todos. E durante o andamento desse sonho veio o Isaac, mas eu não ia desistir, fazia o meu trabalho e outros quinhentos para custear passagem, material, ser pobre é foda. Teve uma época que ela com um salário mínimo me ajudava com o dinheiro da passagem e eu não sei como ela fazia e faz, ela sempre tem dinheiro quando qualquer pessoa precisa.
    Quando o Isaac nasceu ela ia ver ele quase todo dia, se ele estava dormindo ele sentia a presença dela e abria os olhos. O primeiro sorriso foi para ela, eu nunca vou me esquecer daquela boca banguela rindo, hoje ele fala as palavras mais certinhas, mas quando aprendeu a chamar de vó Lesa eu achei um barato e não corrigi.
   Quando eu estou triste ela sente, eu não sou de ligar para ninguém e se ouvir um barulho característico já sei que ela está vindo para ver se eu estou bem. Hoje eu deveria fazer muito mais por ela, mas às vezes não me sinto confortável para ir lá, a vida tem dessas coisas.
   Se um dia você teve a oportunidade de conhecer a minha mãe tenha certeza de que conheceu a pessoa que eu mais admiro no mundo!
    Amo você! Com toda teimosia de uma taurina sábia! 80 no registro mas na vida tem bem mais! Devo tudo que sou a você!


Até amanhã!


Comentários

  1. Ahhhh que linda homenagem, que Belo e fidedigno retrato que é esse retrato que você fez da minha Mãe Tia Teresa Amargosa. E porque amargosa: porque já grandinha eu não parava de mamar no peito....e ela passava babosa no peito da minha mãe para eu sentir o amargo do Aloe Vera e parar de mamar . Mas criança é ésperta e sabe reconhecer quem os ama. Segundo minha mãe eu logo liguei o sabor amargo à presença da Teresa evo amor que eu enxerguei só cresceu, já mocinha eu aguardava ansiosa a chegada a Teresa Amargosa....
    Gosto de sabor amargo , café amargo, jiló, uricanga talvez que pra mim todos eles tenham sabor de Teresa Amargosa e Teresa Amargosa é só amor.

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